sexta-feira, 2 de novembro de 2007

COMO É BOM VIVER


Meus amigos hoje eu quero iniciar uma narrativa que espero possa servir de alento para aqueles que neste momento estão passando por alguma dificuldade de ordem social, moral ou financeira.

Quero mostrar à vocês que apesar de todas as dificuldades que a vida impõe aos desafortunados que assim como eu nunca tiveram mordomias, tem que se seguir adiante, e que se para conseguirem seja o que for, sempre é da maneira mais difícil, o importante é conseguir. O que é difícil sempre tem mais valor. Se você abre a janela pela manhã e consegue deslumbrar o sol que invade a sua sala com o prenúncio de um lindo dia, alegre-se! Você está vivo. e enquanto há vida, há esperança.


Esta é uma sinopse da minha vida. e no decorrer da história, quem já acompanha as minhas postagens, descobrirá o porquê de toda a minha aversão pelas drogas e bebidas.


Pra começar toda a minha vida foi de sacrifícios. Nada para mim era fácil por ter tido uma infância muito pobre. Meu pai era funcionário da light, mas tinha um cargo muito humilde por ser semianalfabeto, e em vista disto seu salário era pouco dando apenas para sobrevivermos. Enquanto nós tínhamos pai, a vida não era lá estas coisas, aliás no meu entender como criança era bem ruim, pois com seu pouco salário ele não tinha como comprar brinquedos e nem roupas novas para vestirmos. Mas pelo menos seu ganho era suficiente para nos sustentar.

Felizmente não tínhamos que pagar aluguel, já que possuíamos nosso barraco próprio feito nos fundos da casa de meu avô que sendo viúvo (não conheci minha avó) cedeu parte do direito de minha mãe como herdeira de minha avó. Mas foi só isso. Meu avô nunca procurou saber se tínhamos o que comer ou não. Até porque logo assim que ficou viúvo casou-se de novo e teve mais 5 filhos.

Não era fácil! As épocas mais difíceis para mim eram as comemorativas. Mas precisamente NATAL e DIA das CRIANÇAS, por serem as datas em que se ganham presentes. Nós (eu e meus irmãos), não tínhamos este direito, e como ainda era criança não entendia o porquê. Então ficávamos no portão olhando as outra crianças exibindo suas roupas novas, e seus brinquedos recém adquiridos.

Para nós brinquedos e roupas só usadas. As roupas minha mãe dava um jeito na que ganhávamos. Muitas vezes com o manequim maior, ou com um rasgadinho aqui e outro ali. Com sua máquina de costura a pedal (na época não havia motor), minha mãe fazia milagres, remedando, fazendo bainha, ou até recortando a roupa novamente e fazendo outro molde para que ficasse na nossa medida. Podia-se assim dizer que minha mãe foi pioneira neste processo de reciclagem. Até os nosso cobertores eram feitos com retalhos das sobras dos tecidos que minha mãe usava em sua costura.

Quanto aos brinquedos, nós só ganhávamos de 2ª mão. E quando isto acontecia eles quase não tinham condições de uso pois vinham para nós em péssimo estado. Mas isso nós conseguíamos superar fabricando nosso próprio brinquedo. Naquela época havia mais diversificação nas brincadeiras. Nós brincávamos de carrinho de roda de bilha (rolimã), patinete, perna de pau, iô-iô, futebol de prego, botão e mais uma infinidade de brincadeiras cujo o brinquedo nós mesmo fabricávamos. Isto sem contar as que não necessitavam de brinquedos como: Pic, bandeirinha, lateiro, carniça e outras. Até aí tudo bem, íamos vivendo. Éramos pobre mas não passávamos fome. Isto viria a acontecer com a morte de meu pai, quando eu tinha ainda 8 anos. Aí sim! eu comecei a sentir realmente o que era privação.

Minha mãe teve 5 filhos, sendo que os (2) dois primeiros (1 casal), morreram ainda muito pequenos. Eu ainda não havia nascido pois sou o caçula dos cinco, portanto não cheguei a conhecer estes 2 irmãos. Dos outros dois, um é portador de deficiência mental (retardamento), e o outro é normal. Acontece que minha mãe não tinha experiência nenhuma em trabalhar fora, pois toda a sua vida fora dedicada somente ao lar. Com a morte de meu pai ela ficou totalmente desorientada, pois se viu de uma hora para outra com a responsabilidade não só de nos sustentar como de ganhar este sustento e foi aí que começou a nossa "via crucis". Se hoje para dar entrada em um pedido de aposentadoria ou de pensão, já é complicado, imaginem naquela época, em 1962. No nosso caso foi ainda pior, pois minha mãe não tinha a menor noção de como mexer com isto. O fato é que até ela vir a receber aquele mísero benefício, nós passamos "o pão que o diabo amassou".

Como eu disse antes, a rotina de minha mãe era só caseira como lavar, passar, cozinhar, nos levar e buscar na escola. Portanto esta nova realidade a pegou totalmente desprevenida. Ela que passou a ter que ganhar o nosso sustento, não viu outra alternativa senão de usar estas habilidades para isto, além de vender alguns ovos fruto de algumas galinhas que possuíamos, ovos estes que muitas vezes ficávamos esperando a galinha "por", para termos o que comer (a gente literalmente contava com o ovo na galinha), passou também a costurar, lavar e passar para fora.

Bem! acontece que com toda esta reviravolta em nossa vida, minha mãe perdeu completamente o controle sobre nós. Eu que já era muito rebelde, desencabrestei de vez. Passei a não ir mais a escola, e mesmo com ela me levando, assim que ela virava as costas eu ia para outro lado. Mas exatamente para um lugar onde havia um cano da CEDAE furado que formava uma piscina onde a mulecada se refrescava. Só que este lugar era perigoso, muitas crianças morriam afogadas, tragadas pelo cano que ficava embaixo d´água, e que de vez em quando aspirava chupando para dentro dele tudo que estivesse próximo. Por essa razão assim que minha mãe tomou conhecimento desta minha travessura, e vendo que já não conseguia mais me manter sobre controle, não viu outro jeito senão o de me internar. A exemplo do que já tinha feito com meus dois irmãos. Um no colégio interno e o outro no hospital psiquiátrico Dr. EIRAS.

Não preciso dizer que para mim foi o fim. Acostumado a liberdade, e já desde pequeno a fazer o que quisesse, pois minha mãe nunca teve voz ativa comigo (talvez por ser o caçula ela passasse mais a mão pela minha cabeça), e de repente me vejo engaiolado, preso a um sistema só comparado hoje em dia a um estabelecimento prisional. Com isto minha rebeldia cresceu mais ainda, e se por um lado eu era castigado por falta de disciplina, coisa que eu nunca aprendera em casa, por outro eu também transformei a vida deles num inferno, brigando, fugindo e extravasando de alguma forma a minha revolta.


Bem! hoje eu fico por aqui, mas eu volto com a 2ª parte da história.


Obrigado amigos e Tchau.

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